O barco chegou, está lá fora à minha espera.
Já passou todo o rio debaixo da ponte, já a procissão largou o adro, já as carnes apodreceram. Eu vi tudo isto, umas vezes de lágrimas nos olhos ao deitar, outras por meio de gritos odientos e enraivecidos, outras de sorriso estampado nos lábios e risos discretos, por entre dentes. Enlacei os dedos quando o quis fazer, larguei mãos não o querendo e assim vivi toda a vida. Preocupei-me com o meu jardim, plantei as mais belas árvores mas nem sempre colhi os mais perfeitos frutos. Teimei em reclamar tudo o que julguei pertencer-me, de orgulho alto e vivo. Vi tudo. Vi fomes e fogos, fés e festas. Agora vejo o fim. Feliz.
O barco chegou, está lá fora à minha espera. Já ganhei coragem para me levantar deste cadeirão, resta-me desligar a televisão, beijar as minhas árvores e encontrar forças para lá fora ir morar.