Eu deixo-me fascinar, imagino-me, perco-me. Depois vejo-me cair, continuo a imaginar, perco-me mais um pouco. A seguir espero novamente pelos fascínios, que teimo em negar mas sempre me assombram. Teimo em negá-los com dor. Estão sempre perto de mim, acho que se lhes perguntarem onde moram eles vão dizer que é em mim que vivem, restará saber se gostam da casa que lhes construí. Pensando melhor, até nem terei sido eu a construir-lhes a casa, talvez se tenham eles moldado a mim, talvez tenham eles criado o seu covil, sempre limpo e deambulante, perfumado e quente, criativo, belo, quase me arriscarei a chamar de perfeito. Com algumas inseguranças pelo meio, com algumas fragilidades, é certo, mas nada que uma parede choramingante como eu não consiga consertar e proteger.
É verdade, os fascínios moram em mim. São parte de mim mas não são eu, e é na nossa diferença que as coisas se fragmentam, caso contrário seríamos parede e fascínios, ou direi fascínio, único e inseparável, se sequer essa palavra constasse do nosso vocabulário e dos nossos conhecimentos duplamente enriquecidos. De qualquer forma, cuido deles melhor que de mim. Penso neles mais que em mim. E conjugando isto agora com as metáforas do meu jardim, talvez os regue mais do que é devido. As consequências são inauditas. E eu tenho paciência para elas, paixão por elas. E amo-as como não consigo amar a mais nada neste mundo imundo repleto de perfeições.