Deito-me neste sofá e adormeço sem querer, isto porque me deixo condensar noutros dias que já se foram, penso neles e desejo-os agora. Dá cabo de mim a espontaneidade, leva-me ao mais absurdo dos sonhos, faz-me lá cair e proíbe-me de levantar o olhar. Durmo, sossegadamente, sem a preocupação de um logo ou de uma noite que não quer aparecer. Drogo-me, insaciável, com suavidades da minha memória ténue. Digo a mim mesma que tentarei amanhã, mesmo sabendo que nunca estás comigo, não sabendo que horas são nem a quem pertence este tempo. Dói-me a mão entrelaçada, dói-me o braço inaceitado, o ombro nunca beijado, o cabelo sempre quebrado. Dicotómica, sinto-me dicotómica e vejo-me dicotómica como nunca antes me vi, deliberadamente indecisa, dicotomicamente deliberada. Doente ao ponto de esquecer o que já vivi, não viver o agora e nem coragem ter, por mais distorcida que viesse a ser, de viver o que aí vem. Durmo contigo e sem mim, acordo comigo e sem ti.