20080511

Eu sei que te procuro. Conheço-te sem alguma vez te ter conhecido, sei como te sentes sem nunca te ter sentido, amo-te sem saber como. Sei exactamente o que quero que sejas para mim, penso nisso sem te atribuir forma. É o teu cheiro o da calçada ainda húmida, entre passos, depois de uma escassa chuva. És o chegar a casa, o pousar da tralha, uma mão nos meus lábios, sem receios, anseios, pressões. O desligar do mundo, a impetuosidade em momentos menos sóbrios, o calor de abraços que nunca afoguei em ninguém, a memória do que já nada interessa. Quero-te para mim como te queres para o mundo, olho para ti como não te olha o mundo, por entre gestos irreconhecíveis de amor incontrolável. Sorris-me quando menos espero, tão timidamente e à espera de um afago, de modo tão envergonhado e doce. Derreto só de pensar, entre dois dedos de conversa nos quais me serves de consciência, e eu a ti, numa simbiose imperfeita recheada de perfeições. Beijamo-nos quando já nada há a dizer, esperamos que surja uma outra palavra de afecto, ou então por algo fútil que não incomoda ninguém, apenas os nossos silêncios profundos e intensos de emoções, esses que nos matariam se os largássemos, com um punhal nas costas ou um carinho traidor. Mas não os largamos. Tenho a perfeita consciência da tua improvável existência, mas os sonhos não seriam sonhos se não fossem passíveis de ser destruídos e devorados pelo inferno que é a vida, o tempo, a incerteza e também a culpa de não sermos melhores do que já somos. Sabendo isto, meto os dois pés na terra de novo, levanto-me daqui e sigo o meu caminho por outro rio que não Aqueronte. Fico à espera de uma realidade feia e destruidora, talvez menos a longo prazo. Penso de novo no teu beijo, eu sei que te procuro. Resta-me encontrar-te e deixar-te no mesmo sítio.